|
|
Dynamite _ Saqueando a cultura pop #
junho 2005
|
Saqueando a cultura pop
por Marco Antonio Barbosa
Ok, diga a versão na qual você quer acreditar. Na simpática, os Gorillaz são
uma idéia genial, concebida por uma galera muito bacana. Uma ácida crítica a
mercantilização da imagem na música pop, complementada por um som maneiríssimo
e um visual hipercool. Na antipática, não passa de uma tremenda armação, um
truque montado para dar visibilidade a um coletivo de picaretas sem idéias.
Independentemente da versão que você vai aceitar, o lançamento de DEMON DAYS,
segundo álbum da banda, não deixa de ser uma das grandes notícias no cenário
pop em 2005. Se trata-se apenas de um caso de malandragem, não dá para negar
que é um golpe pra lá de bem feito. O novo álbum chega às lojas (e antes
disso, à Internet) quase quatro anos depois da estréia do "primeiro grupo
virtual de hip hop". Entupido de participações especiais (que vão do
grupo De La Soul ao ator Dennis Hopper, passando pelo veteraníssimo Ike
Turner), "Demon Days" foi basicamente concebido pela guitarrista
Noodle, que emprestou sua visão...
Peraí. Noodle, como o resto da banda – 2D, voz; Murdoc, baixo; e Russel,
bateria – não existe. O quarteto, sabe-se, foi inventado por Damon Albarn e
Jamie Hewlett, em 2000. O vocalista do Blur e o desenhista da HQ "Tank
Girl". Esqueça o papo-furado de que Murdoc é isso e Russel aquilo: eles são
desenhos animados e ponto final. Espécie de versão pós-moderna das bandas
fabricadas de outrora, os Gorillaz são menos um grupo e mais um pacote de citações
e referências que saqueiam sem dó a cultura pop. E a música que eles fazem
reflete esta abordagem, claro. DEMON DAYS vai pelo mesmo caminho.
Mortos-vivos. O segundo disco propriamente dito da banda foi precedido por
"G-Sides", um disco de lados-B, e LAIKA COME HOME, versão em dub do
primeiro álbum, ambos lançados em 2002. Em uma entrevista cedida pela
gravadora da banda, o quarteto analisa o que há de novo em DEMON DAYS
(entrevista sim, acredite, mesmo que os caras não existam). Mais interessante
do que as coisas que a banda tem a dizer é a delineação das personalidades
dos caras, que fica clara nas declarações. A nerd Noodle é falastrona e cheia
de idéias. Murdoc se faz de ameaçador e bad boy. Russel é irônico e viajandão.
E 2D praticamente não fala (ele tem sérios problemas mentais, como todos
sabem).
"Eu estava no Japão há mais ou menos um ano pesquisando meu passado. Foi
durante esse período que acordei de minha prolongada amnésia e descobri muitos
fatos interessantes sobre mim mesmo. Um dos quais era que falava inglês
fluentemente. Voltei à Inglaterra e comecei a criar as bases de um novo álbum
do Gorillaz. No entanto, o Kong Studios, onde moramos e gravamos, ficou lá
adormecido e vazio durante nossa ausência. Ninguém havia cuidado do prédio e
alguém também o tinha invadido. Parecia haver uma praga de mortos-vivos
infestando o lugar", conta Noodles sobre a gênese do novo disco. E assim
é uma entrevista com os Gorillaz: nunca se sabe o que é sério ou não. Os
"mortos-vivos" são a explicação do grupo para a demora entre os álbuns.
"O lugar é simplesmente cheio de espíritos ruins e vibrações
doentias", diz Russel sobre o estúdio - que na verdade é o próprio site
oficial do grupo (http://gorillaz.com), através do qual, via animações em
Flash, os internautas podem passear.
...
|
|