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O Globo _ Saída de guitarrista não prejudica a qualidade de Think Tank # 25 julho 2003

Saída de guitarrista não prejudica a qualidade de Think Tank, do Blur

Músicos do trio britânico exaltam a união e dedicam-se a outras atividades, o que os faz compor e gravar músicas cada vez melhores.

No primeiro semestre, no festival South by Southwest, em Austin, no Texas, mais de mil bandas de rock tentavam chamar a atenção do público e da mídia. De todos os grupos que vi, apenas um realmente me atraiu, um bando de nove músicos que mostrava um pop do século XXI, emotivo, experimental, bem tocado, ousado e consistentemente interessante, indo do dub mais solto a músicas melodramáticas e ao rock de força total, hardcore. Mas não eram iniciantes: a banda em questão era o Blur, veteranos do britpop, que voltavam ao Texas após quatro anos de ausência.

"A melhor banda inglesa desde os Beatles"
Fiquei pensando no grupo, que existe desde o começo dos anos 90, quando o artista Damien Hirst os classificou como "a melhor banda inglesa desde os Beatles". Eles já provaram ser um dos grupos mais criativos, ambiciosos e musicalmente diversos de sua geração. Seu sexto disco, THINK TANK, lançado em abril deste ano, reinventou o Blur mais uma vez, reunindo influências multicoloridas (trip-hop, música eletrônica, ritmos africanos) em um pop brilhante.

Quando se compara este disco com o anterior, 13, um drama de vanguarda sobre corações partidos e guitarras estridentes, é difícil ver que se trata do mesmo grupo. A voz do cantor Damon Albarn permanece sendo o ingrediente de mais fácil identificação, mas a ouvimos recentemente vindo da boca de um personagem de desenho animado, nos Gorillaz, o outro projeto musical de Albarn, que obteve ainda mais sucesso comercial do que o Blur. Além disso, existe apenas uma certa sensibilidade pop e uma inteligência que liga este grupo àquele que um dia foi visto como o principal rival do Oasis. A banda dos irmãos Gallagher pode ter vencido a batalha do Britpop, mas em matéria de criatividade e desenvolvimento artístico, parece que o Blur está em uma guerra totalmente diferente.

Algo mais era notável naquele show no Texas. Lá havia apenas dois membros originais do Blur: Albarn e o baterista Dave Rowntree. O guitarrista Graham Coxon desapareceu durante as gravações e desde então afastou-se dos antigos companheiros, e o baixista Alex James perdeu o show por problemas de visto. A formação do Blur ao vivo cresceu (tem tecladistas, um naipe de sopros e cantores de apoio) com músicos contratados. Isso não é raro no rock, mas leva a ruminações filosóficas sobre o que dá a um grupo seu caráter particular. O que faz do Blur o Blur?

"Sempre disse que se arrumasse alguém para tocar o baixo por mim, eu o faria", diz James, já reintegrado ao grupo. Um dos músicos mais eloqüentes do pop, ele diz que não importa quem está no Blur.

Alex James: Você começa como um grupo pequeno, como os Beatles em HELP, e acaba como a tripulação da Enterprise. É uma equipe de produção. Ela muda, mas a música acaba sendo cada vez mais importante. O único crime que se pode cometer em uma banda é fazer música ruim.

Para o baterista e multiinstrumentista Rowntree, a única motivação é ser interessante.

Dave Rowntree: Tudo deve passar por esse foco. Mais até do que ser musical, o que fazemos deve ser interessante. É o que nos guia, é o dínamo de Damon. Vem daí a questão interessante que faz o Blur soar como o Blur.

Cantor exalta o trabalho coletivo do grupo
Albarn, que compõe as letras e melodias, não se leva tanto a sério.

Damon Albarn: Peguei as melhores músicas que tinha para o disco. Minhas composições estão por toda parte, e gosto que elas sempre surpreendam as pessoas. Com o Blur, sempre foi sensacional a maneira como desenvolvemos a música quando estamos juntos.

Uma entrevista com cada músico do Blur individualmente é uma experiência interessante. Seria difícil imaginar um grupo com três homens tão inteligentes, articulados e determinados. Aos 30 e poucos anos, os três têm outros interesses além da banda. Albarn tem os Gorillaz e outros projetos; Rowntree dirige uma companhia de animação gráfica, Nanomation; e James faz bicos como jornalista (tem um excelente texto), além de estar envolvido com uma missão que pretende mandar a primeira sonda britânica a Marte.

Dave: Um dos maiores alívios que tivemos quando a banda decolou foi o fato de não precisarmos mais do Blur. Então, se fôssemos gravar um novo disco do Blur ele teria que ser o melhor possível, pois tínhamos várias outras coisas a fazer.

Um dos músicos realmente não apareceu para gravar.

Damon: Não foi um dos nossos melhores dias, quando nos reunimos em meu pequeno estúdio na esquina e Graham não apareceu. (Damon é amigo do guitarrista desde a infância.) É como chegar no seu casamento e a noiva não aparecer. E aí você se casa de qualquer maneira!

Albarn, curiosamente, sugere que a ausência de Coxon acabou sendo benéfica.

Damon: Desde o primeiro dia, o clima tinha que ser muito positivo, porque era a única maneira de seguir em frente. Suspirávamos às vezes, mas, como a maioria das coisas da vida, se você se atém a seus princípios tudo acaba sendo melhor. Foi o que fizemos. Dissemos: "É isso aí, vamos gravar esse disco".

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