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Rock Press _
Adeus ao britpop # dezembro 1999
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Adeus ao britpop
por Marco Antonio Bart
E, meio que na encolha, o Blur veio ao Brasil em novembro para dois shows (um no Rio e outro em SP) - oportunidade de ouro para nós, tupinambás, conferirmos ao vivo uma das mais importantes bandas britânicas dos últimos dez anos. A RP não poderia deixar passar em branco a visita de Damon, Graham, Alex e Dave pelo país, e mais do que rapidamente sacou uma entrevista. Com o "corpo fora" que o vocalista Damon Albarn tirou em relação à imprensa local, e com o guitarrista Graham Coxon reduzido a um estado vegetativo por conta de uma tremenda ressaca (ele é um notório pé-de-cana), sobrou para o simpático baterista Dave Roundtree dar suas impressões pessoais sobre a viagem, o estado da música britânica e o futuro do Blur. Isso, sem poupar farpas à imprensa inglesa e a seus companheiros de britpop (rótulo aliás renegado por eles).
Na sua opinião, como foram os shows?
Dave Rowntree: Muito bons, eu acho... o público esteve bom, tocamos bem, tivemos uma boa performance... No geral, foram muito bons.
Vocês já tinham alguma noção de como seriam recebidos pelos brasileiros?
Dave: Na verdade não, nem sabíamos o que esperar, nunca estivemos aqui antes... mas já tínhamos algumas "pistas". Falamos na Inglaterra com gente que já esteve aqui e nos disseram que vocês, brasileiros, sempre recebem bem os visitantes de primeira viagem, que iríamos adorar o país e que os shows seriam animados... É claro que não deu para confiar em tudo que nos disseram - às vezes as pessoas exageram - mas estamos muito felizes de estar aqui.
Em relação a seus últimos dois álbuns, você diria que o Blur está se afastando cada vez mais da música pop?
Dave: Não, de maneira nenhuma. Nós fazemos pop music. Talvez estejamos
tentando mudar a definição de "música pop" em sim, mas ainda somos uma banda pop.
O som dos últimos discos está mais cru e pesado... Vocês estão tentando atingir um outro tipo de público com sua nova direção
musical, uma audiência mais "roqueira" e adulta?
Dave: Bem, BLUR e 13 soam desse modo mais cru apenas
porque as canções foram feitas para soar desse jeito. Muita gente já falou sobre isso, mas geralmente quem fala são pessoas que não têm noção de música, ou de como um disco é gravado. Uma vez que você entra em estúdio, simplesmente toca do modo como está se sentindo. Se está se sentindo esquisito, então provavelmente as músicas vão soar esquisitas... Foi uma coisa natural, instintiva. Não fazemos discos como se fossem exercícios de marketing.
13 foi produzido por William Orbit, ligado ao mundo da música eletrônica. Como ele foi trabalhar com vocês?
Dave: Ele fez alguns remixes de nossas canções um tempo atrás e ficaram muito bons, então cogitamos de trabalhar com ele como produtor. Tínhamos uma lista bem grande de possíveis produtores para o disco, mas ele esteve sempre no topo de nossas escolhas. Nós o convidamos e ele aceitou imediatamente.
Quais foram as principais mudanças que Orbit operou no som do grupo?
Dave: Ahn... ele só se encarregou do trabalho normal de produtor, para falar a verdade. Ele não tocou nenhum instrumento no disco, ficou apenas
concentrado em pôr nossas performances em fita. Em relação ao Blur, o trabalho principal do produtor é "traduzir" para a fita nossas idéias, e foi isso o que Orbit fez. Qualquer mudança que se possa notar em 13 veio do nosso trabalho como banda, daquilo que nós quisemos fazer. Nós chegamos em estúdio com as idéias bastante estruturadas, e então junto com o produtor ficamos tentando maneiras diferentes de trabalhar as músicas, buscando improvisações.
Por outro lado, o som do Blur já mudou muito com o tempo, desde os tempos de LEISURE (1990) até agora. Como essas mudanças foram ocorrendo?
Dave: As mudanças vêm de nós mesmos, de como mudamos como pessoas. Vamos evoluindo como pessoas e como banda, então não poderíamos fazer discos exatamente iguais uns aos outros. Nossa música se desenvolve conosco, à
medida em que amadurecemos e que nosso relacionamento interno vai mudando. Somos humanos, e
como tal nunca paramos de mudar e nos desenvolver.
Vocês já tem alguma idéia sobre o futuro do som do grupo, para que lado vai evoluir a partir de agora?
Dave: Nunca se sabe o que virá... eu nunca sei de nada, até estar com as baquetas na mão e pronto para tocar. Nunca sei o que vai sair da minha bateria.
Em relação à cena pop na Inglaterra, o Blur sofre muita pressão para continuar no topo?
Dave: Pressão (pausa)... A maior pressão é aquela imposta por você mesmo. Ninguém nos pressiona a fazer mais sucesso, ou a compor músicas mais comerciais. À
medida em que fomos amadurecendo e ficando mais confiantes, nós deixamos de nos importar com qualquer tipo de opinião externa. Porque (pausa)... parece que quanto mais você tenta fazer música para agradar os outros, maiores são suas chances de fracassar. Você tem de aceitar o fato de que não dá para ser genial todo o tempo.
E como é a relação de vocês com a imprensa inglesa?
Dave: Oh, é uma relação instável. É difícil boicotar de vez a imprensa, mas já estamos em um estágio em que não importa muito o que escrevem a nosso respeito; afinal, são cabeças diferentes, opiniões diferentes. Assim, creio que não nos incomodamos mais com a imprensa, o que é bom. O problema é que as bandas que estão começando agora acabam dependendo muito dos jornalistas e de suas opiniões e gostos, que costumam variar muito... e o pior, variam de acordo com critérios que nem sempre têm muito a ver com a música.
E quanto ao chamado Britpop? O Blur ainda se sente ligado a esse "cena"?
Dave: Britpop é só uma palavra que alguém inventou e pôs no papel... É só uma expressão espertinha que algum jornalista criou. Nunca teve nada a ver conosco, ou com qualquer coisa que já tenhamos feito. O negócio é que a imprensa inglesa está sempre desesperada para descobrir uma "cena" que esteja acontecendo. Os jornalistas querem tratar a música pop como uma arte "erudita", e então qualquer banda nova que surge é logo tratado como parte de um "movimento". E então acabam acontecendo coisas que não deveriam acontecer, como bandas competindo umas com as outras. Sempre que você vir um jornal inglês descobrindo um novo "movimento", ignore. Eles apenas fazem de conta que há um real movimento, mas nunca há.
Vocês já estão juntos há quase dez anos...
Dave: Já completamos dez anos...
E vocês nunca mudaram de formação. Como é que vocês lidam com as inevitáveis tensões dentro do grupo?
Dave: Bem, é bom ter opiniões diferentes dentro da banda. Todos temos idéias próprias, e idéias valem dinheiro no mercado da música. Nunca tivemos nenhum problema quanto a diferenças de opinião. Quanto mais alternativas, melhor: maiores são as chances de que acabemos escolhendo o caminho certo. Tem funcionado até agora.
E desses dez anos, você poderia dizer qual foi o ponto alto da carreira do grupo?
Dave: Hmm... é difícil dizer. É uma questão ambígua, quer dizer, "ponto alto" em que sentido? Poderia dizer, por exemplo, que foi quando nós
conseguimos vender mais discos que o Oasis no auge da "guerra" que tivemos com eles... uma coisa importante que aprendi nesse tempo todo é que quanto menos você se esforça para fazer música, melhor ela vai ficar. Mas é difícil pegar um único ponto. Creio que ainda não chegamos a esse momento. Porque ainda estamos trabalhando duro, e ainda temos muito tempo à nossa frente. Posso dizer que tenho orgulho de tudo o que fizemos. Tudo foi maravilhoso, gratificante e digno de orgulho. As coisas que as pessoas podem imaginar como importantes - nossos prêmios no Brit Awards, o dinheiro que ganhamos - tudo isso não é tão importante para nós.
Mais uma vez sobre o pop britânico: quais são as bandas que vocês consideram como seus pares na cena inglesa?
Dave: Nós odiamos todas as outras bandas.
Todas?!
Dave: Todas. É só ligar a televisão e ver, só tem porcarias.
[foto da matéria]
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