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  Abacaxi Atômico _ Oasis: make believe # maio 2005

Oasis: make believe
por Sukrilius

É aquela velha história. A banda lança seu primeiro disco e causa uma baita repercussão. Os fãs lotam seus shows, a imprensa cai de joelhos, você venceu a batalha. A próxima é ainda pior: o teste do segundo disco. Como segurar a ansiedade e as expectativas lançando um disco que tem que ser no mínimo do mesmo nível do primeiro? E a banda consegue e amplia ainda mais seus horizontes, se isso seria possível. Já cheia de confiança, chega ao terceiro disco e por melhor que ele seja (como realmente é), a expectativa e pressão são ainda maiores, a banda testa um retorno para a "fórmula" dos primeiros discos ou então tenta novos caminhos. Acabam fazendo boas canções, mas os discos não causam o furor de outrora, os fãs até gostam, mas já não é a mesma coisa. Aí quando já não se esperava muita coisa, a banda retoma as influências de uma forma diferente e faz uma obra-prima, algo do mesmo nível dos primeiros, que supera tudo o que eles fizeram recentemente e possibilita que a banda retome seu lugar de destaque que ainda está lá, embora vago.

DON'T BELIEVE THE TRUTH: até no título a banda dá o recado, como "escute isso aqui e pare de ler bobagens sobre nós". Depois do arrastão chamado DEFINITELY MAYBE, um dos maiores fenômenos pop de vendas na ilha, a banda ganhou o mundo com o (WHAT'S THE STORY?) MORNING GLORY. Mais de 10 milhões de pessoas adquiriram a pérola do britpop, onde a essência do rock inglês clássico era atualizado para a década de 90 e propagado aos quatro cantos do planeta, assim como a língua solta e hilariante dos Gallagher, que ajudavam bastante no marketing.

Marketing foi o que não faltou no exagaradamente sensacional BE HERE NOW,  que conseguia ser ainda maior que o ego dos irmãos Noel e Liam. Outro sucesso absoluto, também atingiu a casa das dezenas de milhões de cópias. Mas o disco já soava exagerado em tudo: produção, tamanho das músicas, tudo vinha ao extremo, inclusive as referências aos Beatles. É meu disco preferido, mas já acusava um ou outro deslize.

THE MASTERPLAN justifica perfeitamente o título. No ápice comercial, lançam uma coletânea de b-sides, e uma coletânea de b-sides do Oasis pode perigosamente superar uma coletânea de a-sides, ninguém sabe desperdiçar tantas belas canções como eles.

Daí em diante a maionese desandou um pouco, STANDING ON THE SHOULDER OF GIANTS é meia bomba, mas levando em consideração os quatro discos anteriores da banda, não deixa de ser um fracasso. As vendas já não são as mesmas também, mas os Gallagher continuam os mesmos. Gravaram um cd duplo e dvd ao vivo no estádio de Wembley, onde os 70 mil ingressos para cada noite se esgotaram em questão de minutos. O show foi bem razoável, a voz do Liam estava terrível, mas a galera dava conta do recado, sorte dos músicos, que já entraram no palco com o jogo ganho...

HEATHEN CHEMISTRY é uma sutil melhora. É um disco bacana, que os fãs gostaram, mas que não estremece os pilares do cenário pop, algo que nos idos de 1994 eles faziam com um riff de guitarra do T-Rex e que agora precisavam de um riff de guitarra do Stereophonics.

Chegamos então a 2005. Da formação original da banda, restam apenas quem deveriam restar: Noel e Liam. Os "coadjuvantes" são os melhores desde o surgimento do Oasis: Gem Archer, Andy Bell e o novato Zak Starkey na bateria (filho de Ringo Starr), que estava no Who e vai dar um novo ânimo, principalmente nos shows. Liam finalmente demonstra que está aprendendo a escrever boas letras e o Noel faz o habitual: belas melodias, também cercado por boas contribuições dos demais integrantes. A banda volta revisitando o que mais manja, o rock dos anos 60/70, mas volta diferente.

O Oasis amadureceu, envelheceu. É o disco mais calmo da banda, nunca o piano aparece tanto, o que não quer dizer que seja um disco de baladas, mas em várias passagens, quando você esperava aquela guitarra rasgada e distorcida... Entra um piano! Se ficou bom? Não, ficou excelente! É um disco de rock feito como a banda planejou, mas com aquele "tino", com aquele aroma pop, onde qualquer uma das 11 músicas pode tocar no rádio, fazer sucesso, sem ser algo enjoado, tipo a boa e cansativa STOP CRYING YOUR HEART OUT, do disco anterior, ou a maravilhosa e interminável ALL AROUND THE WORLD, do BE HERE NOW - essa, levou uma severa "tesourada" das rádios, que jamais tocariam uma canção de nove minutos e meio. Talvez o último disco de rock que tinha essa veia "pop" sem ser claramente pop seja o THERE IS NOTHING LEFT TO LOSE, do Foo Fighters, de 1999. Mas esse é outro papo.

DON'T BELIEVE THE TRUTH, que chega nas lojas dia 30 de maio, apresenta um Oasis que veio retomar as rédeas do cenário pop. Vai funcionar? Não posso responder, mas é inegável que a banda corrigiu seu rumo e eu, como um mero fã, não sinto tanta alegria em escutar um disco de inéditas dos caras desde Be Here Now. E faz tempo, hein? Faixa por faixa:

TURN UP THE SUN: a melodia do início da canção já deve matar de raiva o Coldplay, Travis ou qualquer banda do gênero, por fazer algo tão simples e belo. A canção engrena, a voz do Liam entra rasgada. Canção carregada, teclado por trás das guitarras. O final é uma maravilha, ela volta a ficar calma e encantadora até terminar.

MUCKY FINGERS: na primeira audição, exclamei "é igual WAITING FOR THE MAN, do Velvet Underground!". Noel completou, com a sua costumeira modéstia, que é o encontro do Velvet com Bob Dylan. Procede, pela forma que Noel canta a canção, mas vamos voltar pro planeta Terra, Dylan tá muito acima. É algo muito diferente do que o Oasis já fez, é surpreendente. Melodia linear, letra como narrativa, e que letra "You get your mucky fingers burnt / You get your truth or your lies you have learnt / And all your plastic believers they leave us and they won't return". Um piano muito bacana, além da gaita, baixo e bateria improvisando no final. Show de bola.

LYLA: primeiro single, tem alguma coisinha de STREET FIGHTING MAN, dos Stones. Melhor, impossível. Oasis tipicamente Oasis, um alento para as rádios. Pop que pega, refrão belíssimo, ótima letra: "Hey Lyla / The stars about to fall / So what you say Lyla / The world around us makes me feel so / Small Lyla / If you can't hear me call / Then I can't say Lyla / Heaven help you catch me when I fall". O piano ao fundo, os sobressaltos de guitarra e o final onde um piano calmo contrasta com o resto da canção. Um primor.

LOVE LIKE A BOMB: canção de Liam, letra bobinha pra você cantar pra sua namorada. Balada bonitinha, tem uma parte bem interessante quando ele canta "Blowin' my mind", logo em seguida tem-se a impressão de que a canção vai explodir, ficar pesada e agitada. Nada, entra um pianinho maravilhoso, só realçando.

THE IMPORTANCE OF BEING IDLE: uma das melhores canções da banda, melodia que lembra bastante algumas coisas de Who, Kinks, ou indo mais longe, Animals e Yardbirds. O vocal de Noel encarna com perfeição o sentido de sua letra. Uma das melhores letras do Oasis, sem dúvida: "I sold my soul for the second time / Cos the man, he don't pay me / I begged my landlord for some more time / He said "Son, the bills waiting // My best friend called me the other night / He said "Man, are you crazy?" / My girlfriend told me to get a life / She said "boy, you lazy" // But I don't mind / As long as there's a bed beneath the stars that shine / I'll be fine / If you give me a minute / A man's got a limit / You can't get a life if your hearts' not in it". Isso aí são apenas as duas primeiras estrofes e o refrão e creio não ter como não nos identificarmos com alguma parte dela.

THE MEANING OF SOUL: punk rock bacana, letra de Liam. Porém acústico. Ficou inusitado, interessante, ao vivo se tocar plugado deve empolgar muito, até porque a canção não possui nem dois minutos.

GUESS GOD THINKS I'M ABEL: ótima balada de Liam, destaque para os violões e piano ao fundo. Mas o ápice são os inusitados dez segundos sinais, com o advento da bateria. Muito bom.

PART OF THE QUEUE: canção de Noel, bastante inspirada em Paul Weller. Ótima letra, onde ele se encontra perdido, enquanto a bateria, baixo e piano te surpreendem. Outra ótima canção.

KEEP THE DREAM ALIVE: outra bela canção, preste atenção no baixo, muito bom. Canção mais anh, "climática", talvez a única canção do disco que poderia ser um pouco mais curta, apesar de não ser tão longa assim (5'47'').

A BELL WILL RING: rock com letra de Gem Archer, tem um estilo que remete aos dois últimos álbuns, o que não compromete o conjunto do disco.

LET THERE BE LOVE: poderia estar perfeitamente entre os b-sides renegados de LET IT BE, Abbey Road ou naquelas coisas aparentemente desconexas que ficaram de fora do Álbum Branco. Balada beatle do Oasis, com "aquele piano", "aquele violão", tudo no tempero certo, Noel Gallagher é um tremendo chef da culinária pop. Antigo b-side, foi reformulado, agora Noel e Liam dividem as vozes. Fecha de maneira irrepreensível o disco, o tecladinho no final eu até acho que tem um dedo do Phil Spector, hahaha.

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