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O Estado
de S. Paulo _ As noites tropicais do Oasis # 27 março 1998
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AS NOITES TROPICAIS DO OASIS
As estudantes brasileiras que furaram o cerco e conheceram os irmãos Gallagher de pertinho
por Jotabê Medeiros
Nancy Spungen apanhou Sid Vicious na sua rede. Courtney Love garfou Kurt Cobain. E, por algumas fugazes horas, no último fim de semana, as estudantes brasileiras Simone Filadelfo e Lilian Vituzzo, ambas de 23 anos, tiveram os irmãos ingleses Noel e Liam Gallagher nas mãos - e vice-versa, "of course".
Bad boys do grupo britânico Oasis - a banda da hora no cenário rocker internacional - Liam e Noel promoveram um festinha de embalo logo depois de seu derradeiro show brasileiro, no sambódromo paulistano, no sábado passado.
A festa foi tão animada, que acabou fazendo uma vítima: o guitarrista Paul Arthurs. Depois de entornar uma garrafa inteira de champanhe francês Crystal, a preferida da cantora Nina Simone, ele capotou e só conseguiu embarcar na segunda-feira para a Cidade do México, etapa final de turnê BE HERE NOW.
Mas vamos à história, uma breve crônica das noites brasileiras do Oasis. No final das contas, apenas uma história trivial no cardápio do rock.
"O que é que meus amigos na faculdade vão pensar de mim?", pergunta Simone Filadelfo, enquanto contabiliza as fotografias que tirou no encontro. Inclina-se para trás na cadeira e
logo retoma o ar decidido. "Ah, deixa para lá...", exclama. A amiga Lilian não demonstra qualquer hesitação e começa a desfiar o ocorrido.
Tudo começou no bar do Hotel Maksoud Plaza, no sábado a tarde. Rob, chefe da segurança do Oasis, passeava com Liam Gallagher e outros três seguranças e viram quatro garotas tomando refrigerante no balcão. Não demorou muito para Liam mandasse o segurança chamar as moças para uma "festa de arromba" logo depois do show. Elas, por sua vez, não se fizeram de rogadas, afinal já tinham estado em inúmeras outras festas de pop stars em sua carreira efervescente - Lilian, que se tornou personagem de revista feminina com sua fulgurante carreira de groupie, já andou desfilando com gente como Jason Bonham, Evan Dando, Dave Mustaine e por aí vai...
Liam nem tinha tirado a camisa número 9 da seleção brasileira quando chegou ao restaurante Vikings, dentro do Maksoud Plaza, lá pelas 2 horas da madrugada de domingo. Lilian perguntou o que significava o anel com uma pedra azul em forma de coração. "É irlandês, herança de família", disse o cantor.
Liam parecia estar gostando de Lilian. Elogiou seu jeito exótico, criticou suas tatuagens na cintura ("Nunca faria", afirmou) e achou seu cabelo bárbaro. "O meu está horrível, acho que vou
cortar", afirmou.
Mas tratando-se de Liam Gallagher, nunca se poderia ter certeza que ele estava mesmo numa boa. Afinal, duas noites antes, no bar do Hotel Sheraton, no Rio (depois de ouvir placidamente Burt Bacharach), ele quase mandou um tapa no rosto de uma scort-girl gringa que o convidou para um tour pelo quarto dela.
As garotas brasileiras, animadas por haver conseguido romper a barreira diáfana que separa o pop star do fã, cantavam na mesa - como back vocals dos irmãos Gallagher - as canções que os "brothers" celebrizaram mundo afora: DON'T LOOK BACK IN ANGER, HELP e
WONDERWALL.
Noel Gallagher fez confidências. Disse que odiou caipirinha, que só tomou para ser "polido". Disse ainda que despreza Stones, mas respeita Prodigy, Verve, Primal Scream e o seu irmão caçula, Liam, a quem abraça o tempo todo, longe dos olhares da imprensa. "Os dois se adoram, essa história de que não se suportam é puro marketing", revela Lilian.
Em dado momento da festa, o guitarrista Paul Arthurs interpelou Lilian com um série de questões morais. "O que você está fazendo aqui?", perguntou. "O que você está querendo?" E, para concluir, citou uma música do próprio Oasis, DON'T LOOK BACK IN ANGER, para dar-lhe um conselho: "Não coloque seu amor nas mãos de uma banda de rock, você está perdendo seu tempo". Simone Filadelfo deu-se muito bem com Noel Gallagher. Ganhou dele um button que o guitarrista do Oasis usa o tempo todo na lapela, com a inscrição "Saint/Sinner" (Santo/Pecador), cada palavra em um pólo oposto a outro. A certa altura da noitada, Noel a convidou para
subir. "Se você quiser subir, ninguém vai ficar sabendo", garantiu o guitarrista.
E, então, ela conheceu biblicamente o pequeno Noel, que classificou de "fenomenal". E preferiu que todos ficassem
sabendo, como naquela piada na qual o sujeito naufraga e vai parar numa ilha deserta, sozinho com a Cindy Crawford. É preciso ter para quem contar.
Na manhã de domingo, Simone conta que dividiu o apartamento 1.503 do Maksoud Plaza com o guitarrista, que estava hospedado com o codinome Mr. Steve Burton. Para chegar até lá, foi escoltada por um segurança. Saiu de lá às 7h. Ao meio-dia, o guitarrista ligou para sua casa, ela não estava. E eles provavelmente nunca mais se verão. Lilian achou Liam uma gracinha, mas diz que não quis nada com ele. "Não coloque seu amor nas mãos de uma banda de rock", dizia a canção que ela ouvia no toca-fitas do carro enquanto voltava para casa.
SOMBRANCELHAS EM FÚRIA
Oasis é lição pop para os brasileiros
Nada de cenário, nada de fogos de artifício, os ingleses mostraram como se faz um legítimo show de rock
por Ricardo Alexandre
São Paulo, Anhembi, dia 21, 22h30. ISSO É ROCK'N'ROLL. Depois de quarenta anos vendo shows de artistas fazendo hora extra no circo pop (Paul McCartney, Rolling Stones, Page & Plant), monstrengos superproduzidos que pareciam formiguinhas lá no palco (U2), finalmente fisgamos um grande, na hora certa.
O Oasis, em seu show no último sábado, provocou histeria nas meninas, ciúme nos garotos e fez todo mundo cantar junto o rosário de sucessos supreendentemente grande para quem tem apenas três discos lançados. Melhor que isso, mostrou para o público brasileiro como é que se faz um bom show de rock, como se comporta uma legítima banda de rock e como se valoriza o formato pop em um país cujo termo "popular" virou o mesmo que "xulé", "vergonhoso" ou "picareta". Já não era sem tempo - o século já está acabando e se ninguém entender agora é melhor desistir de vez.
Não vem muito ao caso se os mancunianos são artisticamente conservadores ou se seu estilo não antevê muitas possibilidades para o futuro de sua carreira. É música pop como ela deveria ser feita, mais poderosa que os esquemas de marketing das gravadoras (tanto que a meninada bradava ferozmente a letra de ROLL WITH IT, por exemplo, cuja existência é solenemente ignorada pelas rádios nacionais) e uma atitude rock que é uma verdadeira lição para os locais.
Mas não parece suficiente para um público que comprou 2 milhões de discos do Só Pra Contrariar. Amalgamar as melhores referências do século 20 em um cozido pop não é o bastante em um país onde Ostheobaldo se prepara para gravar seu segundo disco. Até Adriane Galisteu se achou no direito de criticar a "arrogância" e o "desinteresse" da banda em relação a seu público. A viúva de Ayrton Senna reclamou até da proibição de mulheres bonitas chegarem próximo da banda - na certa, por entender que a medida limita a ação de fêmeas que vivam de pegar carona na fama dos outros...
Seguinte: simpatia não é arte. Minha avó é um amor e ninguém daria um níquel para ouvi-la cantar. Somente quem é incapaz de juntar dó com fá precisa chacoalhar os glúteos para oferecer-se ao público. O fato de o Oasis subir ao palco sem dizer um "oi" é louvável porque
representa músicos que acreditam no poder da sua música. Nada de cenário, nada de fogos de artifício, nada de laser, nada de telão. E quem esteve no Anhembi viu o quanto isso pode funcionar nas mãos de quem sabe fazer.
O marketing "arrogante" da banda é reflexo do conceito que os Gallagher pensaram para si e vem na tradição de qualquer boa banda de rock. Os Beatles eram arrogantes, o Pink Floyd era arrogante, os Stones também, o Led Zeppelin era, os Stone Roses eram, os Smiths eram muito arrogantes. Paul McCartney lembra que seu grupo se recusava a tocar nos Estados Unidos porque seus singles ficavam nas paradas de sucesso em posições inferiores a artistas que eles não respeitavam. Em seus primeiros shows na América, o Oasis tocava de costas para
a platéia e, um ano depois, a Sony Music os elegia como prioridade máxima da gravadora nos Estados Unidos.
Na contramão de tudo que a história apresenta, temos os patéticos grupos de "roque" brasileiro, tentando fazer média com as gravadoras, comprar a simpatia do Caetano, armando
dueto com Gal, fazendo lobby para tocar no H, pagando jabá para aparecer na Jovem Pan, dizendo que tudo "tem seu valor" ou que até buttmusic baiana deve ter "seu espaço" e jogando sua integridade no ralo.
Tudo em nome de uma "arte" que não suporta duas linhas de crítica isenta. O mundo inteiro tem seus representantes da música pop de estrofe-refrão-estrole-solo-refrão, menos o Brasil (tanto que o grupo de abertura do Oasis foi um híbrido rap-metal, o Squaws), um país onde a manha pop foi substituída por uma sucessão de acordos e máfias de marketing que começa na cabeça vazia de um "artista" inventado, passa pelas rádios "jabazeiras" e despreparadas e termina com um ouvinte que nunca ouviu Beach Boys na vida.
E não venha você com aquela história de "valorizar o que é nosso", porque é perfeitamente possível ser pop, brasileiro e universal ao mesmo tempo - os Paralamas são um ótimo exemplo, ainda que isolado.
O Oasis veio nos ensinar o que deveríamos ter aprendido nos anos 60. A música pop é um bem inestimável que nunca vai se extinguir e o imaginário de detonações do rock é algo que é inerente à adolescência de todo mundo. Tanto que os grupos eletrônicos que se dão bem são aqueles mais próximos desse imaginário, como o Prodigy, por exemplo. Quem não concorda com isso, bem, toda semana tem o ET acordando a Carla Perez no Domingo Legal do Gugu. É só escolher de que lado você está.
[foto da matéria]
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