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Folha de S. Paulo _ Talvez definitivo # 03 junho 2004

Talvez definitivo
por Lúcio Ribeiro

O ano de 1994 não ficou só marcado pela morte do Cobain ou pelo Dunga levantando a taça. Teve uma penca de álbuns pop dignos lançados, importantíssimos para a época. Uns mais, outros menos importantes, na verdade. Numa lista rápida dos álbuns que completam 10 anos este ano, podemos incluir: SELECTED AMBIENT WORKS 2, Aphex Twin; MELLOW GOLD, Beck; PUSSY WHIPPED, Bikini Kill; DOOKIE, Green Day; LIVE THROUGH, Hole; GRACE, Jeff Buckley; (WELCOME TO) SKY VALLEY, Kyuss; THE DOWNWARD SPIRAL, Nine Inch Nails; MTV UNPLUGGED, Nirvana; SMASH, The Offspring; VITALOGY, Pearl Jam; DUMMY, Portishead; MONSTER, R.E.M.; SUPERUNKNOWN, Soundgarden; CHOCOLATE AND CHEESE, Ween; BLUE ALBUM, Weezer; CRAZYSEXYCOOL, TLC, entre muitos outros. Olha que eu nem citei o disco do Bon Jovi e o do Phil Collins...

Mas dentro deste "Class of 1994" em CD, o disco aniversariante mais significativo é o histórico DEFINITELY MAYBE, o de estréia do Oasis. É até engraçado olhar para trás, hoje, para falar de uma banda que chacoalhou a música pop durante alguns anos e depois por muitos construiu a fama de arrogante, briguenta, cópia de Beatles, repetitiva. Mas que ainda assim é escolhida para estrelar o colossal Glastonbury Festival deste ano. Deste mês.

Quem não viveu o 1994 (e o 1995, 1996) britânico não tem idéia do que foi a chegada da banda dos Gallagher à música jovem. Perto de DEFINITELY MAYBE, o bafafá em torno do CD debut dos Strokes, por exemplos, parece um cochicho. Note que 1994 aqui era pré-internet.

DM foi lançado em agosto, mas o "buzz" em torno do grupo rebelde de Manchester já era grande no começo daquele ano, por causa do lançamento pela Creation do single SUPERSONIC, em abril. A fama dos caras era forte, a música ótima e o selo era Creation. Combinação explosiva.

Lembro bem a primeira vez que ouvi Oasis. Já tinha lido sobre a "banda que ia estourar". E, numa edição do finado Melody Maker, veio uma fita cassete com quatro músicas. Uma delas, e nem a principal, era CIGARETTES & ALCOHOL. Botei o K7 no toca-fitas do carro (lembra de toca-fitas? Aqueles de gaveta?) e fui ouvir o tal Oasis. Achei muito Rolling Stones e torci um pouco o nariz para o vocal, antipático. Ouvindo depois, no mesmo dia, continuei achando Stones, mas já estava gostando bem mais. "Que vocal esperto", mudei de idéia rapidinho. Duas músicas depois, o Oasis já era a minha banda predileta.

Mas enfim. Agora no próximo dia 13 quem faz aniversário é o single SHAKERMAKER, o segundo dos Gallagher. A fama já era bem notória. O primeiro single, SUPERSONIC, chegou ao 31º lugar na parada normal britânica. SHAKERMAKER já catava o 11º da parada mainstream. Feito notável para um grupo que nem tinha um álbum. Agosto veio e com ele o single LIVE FOREVER e o disco cheio, DEFINITELY MAYBE. E aí...

Com a série de singles excelentes, o tão badalado primeiro disco e uma atitude de quem não estava surpreso com nada daquilo, o Oasis fez reviver o pop britânico, que andava largado, desatado e só tinha brilho em ações isoladas ou muito underground. A Inglaterra sonora caminhava caótica, bagunçada pela zoeira grunge, pela ascensão eletrônica e se perguntando o que tinha dado de errado com os Stone Roses e o Madchester.

Faltava alguém como o Nirvana para quebrar muros e abrir caminho para os grupos que borbulhavam no andar de baixo do mainstream. Aí vieram os Gallagher. E o sucesso do Oasis forjava, o britpop, movimento que foi uma febre absurda na Inglaterra, requentou a movimentação de clubes, fez procriarem publicações musicais, era cantado por bêbados de pub e por lordes, invadiu a política, foi atrelado às mudanças sociais proclamadas pelo governo Tony Blair. Era engraçado ver a entrada que o Oasis tinha na população pobre e achatada do Reino Unido. De alguma forma, as melodias e as letras esquisitas dos Gallagher tocavam fundo na classe operária britânica. Oasis logo virou música até de estádio de futebol.

O Oasis foi talvez a primeira grande banda que parecia outras bandas, sinais fortes da entrada da música pop na era da transformação de Lavoisier. Graças a ótimas canções de perfect pop criadas pelo genioso Noel Gallagher, o Oasis se tornou a mais Beatles das bandas, tirando os próprios. E na química do quinteto tinha ainda Stone Roses, Sex Pistols, os Stones, Kinks etc. 

Noel Gallagher, na época, sobre a baladaça LIVE FOREVER, o carro-chefe do CD DEFINITELY MAYBE: "É uma das melhores canções de todos os tempos. Duvido que alguém faça algo parecido nos próximos dez anos. A não ser nós mesmos, claro". Os dez anos já se passaram. O Noel queimou a língua? Opine.

DEFINITELY MAYBE vendeu perto de 200 mil cópias na Inglaterra, na semana de lançamento. Até o final de 1994, com a chegada do Natal, bateu no 1,5 milhão. Isso que o álbum com que o Oasis iria explodir, mesmo, seria o próximo.

Tempos depois de lançado o DEFINITELY MAYBE, o jornal Los Angeles Times enviou à Inglaterra por três meses um jornalista musica para "entender" o fenômeno Oasis. 

Em 1998, quando o Oasis apareceu no Brasil pela primeira vez, este colunista entrevistou o "descobridor" da banda, o produtor, empresário, músico e guru do britpop Alan McGee, o dono da lendária Creation. A gravadora, que faliu há alguns anos, deixando por exemplo o Teenage Fanclub sem teto, foi o lar de bandas como Jesus & Mary Chain, My Bloody Valentine, Primal Scream, o fantástico Biff Bang Pow! (do próprio McGee), entre outras. Com o "advento" Oasis, a Creation ficou milionária. E foi apoderada pela mega Sony. Hoje McGee tem o clube Death Disco, em Londres (onde vende cerveja Brahma e foi o local que eu ouvi White Stripes pela primeira vez), a gravadora Poptones e é o empresário do Libertines, talvez a banda mais bacana do novo rock inglês.

Parte do papo com McGee foi assim: 
Você foi o homem que revelou o Oasis ao pop, em 1993. Como analisa, hoje, a importância da banda para a história da música inglesa? Gostaria que você falasse menos como manager do grupo e mais como "padrinho do britpop" e o primeiro a assinar com bandas tipo Primal Scream, Jesus & Mary Chain e My Bloody Valentine.
Alan McGee:
O Jesus & Mary Chain foi o começo da revolução alternativa da música. Se eles não tivessem existido, talvez não teríamos tido bandas como My Bloody Valentine, Primal Scream, Stone Roses. E, sem os Roses, provavelmente talvez o Oasis também não existiria hoje. Acho que o Oasis é um desses fenômenos que aparecem a cada 20 anos. Basicamente o que eu fiz foi telefonar para os Gallagher e lançar o disco deles.

Como foi a "descoberta" do Oasis?
McGee:
Foi em Glasgow, Escócia, maio de 1993. Em um bar chamado King Tut's Wah Wah Hut. Cheguei cedo lá. Eu já estava bêbado, inclusive. No bar tinha uns 15 scallies (gíria para garoto proletário desempregado). Todos pulando, quebrando tudo ao ver o Oasis. A banda não estava nem anunciada e abriu para três outras atrações daquela noite. O Oasis tocou quatro músicas, achei brilhante. Fui atrás e fechamos o contrato.

Dizem que no dia seguinte do tal show da Escócia você ligou para o editor do semanário New Musical Express, Steve Sutherland, para comunicá-lo de que você tinha encontrado "A Banda". Qual é a história?
McGee:
Foi verdade. Falei para ele: "Lembra a última vez que eu liguei para você, nos anos 80, para falar sobre o Jesus & Mary Chain, que eles talvez seriam a melhor banda do mundo. Estou ligando de novo agora para dizer que acabei de achar a melhor banda de rock'n'roll do mundo".

É verdade que o Oasis salvou a Creation da falência?
McGee:
Foi. Estivemos perto da falência durante uns 10 anos. Como todas as independentes. Aí achamos o ouro e lançamos DEFINITELY MAYBE. Pagamos todas as dívidas que havíamos acumulado durantes os 10 anos. Depois veio MORNING GLORY, que vendeu até agora 14 milhões de cópias. É, o Oasis tem sido bom para nós.

Como última ode ao histórico DEFINITELY MAYBE e seu aniversário de 10 anos, republico abaixo trecho grande de um artigo do badalado escritor britânico Will Self sobre o Oasis. Foi originalmente realizado para a revista Details, se não me engano em 97. Will Self é considerado um dos mais importantes autores da nova geração britânica e foi colunista do jornal britânico The Observer. E gastou seus dotes literários para descrever o que representou o Oasis para o Reino Unido na metade da década passada.

Will Self e o Oasis

"A primeira vez que escutei o Oasis - repetidas vezes - foi no show de rádio de meu amigo Mark Radcliffe, da BBC. Mark é transmitido de Manchester. E conhecido por pegar o que quer que seja que esteja vibrando de perversidade pop polimorfa naquela cidade. 'Maay-bay, I don't reely wanna know...', Liam Gallagher rosnava sem parar na canção LIVE FOREVER. Eu captei o ritmo, mas não fazia muito o meu gênero. Era branco demais, guitar band demais, auto-referencial demais ao próprio rock.

"Mas quando a imprensa e a babel geral começaram a admiração, descobri-me intrigado. Noel afirmava ter roubado uma loja de seu bairro aos 13 anos. A banda havia ameaçado queimar um clube proeminente caso não pudessem se apresentar lá. Havia havido uma confusão a bordo de um ferryboat. O Oasis não arrasava os quartos de hotel, eles os fatiavam. Gabavam-se orgulhosamente de serem maiores que os Beatles - a coqueluche do pop. E havia drogas - toneladas de drogas. E havia mulheres - toneladas de mulheres.

"Embora sejam ostensivamente britpop, os irmãos Gallagher são, na verdade, parte da segunda geração de imigrantes irlandeses. Sua sensibilidade musical foi formada tanto por canções familiares em County Mayo como pelos hinos niilísticos do Sex Pistols.

"Muito se tem dito da afinidade da banda com tudo que é coisa beatle, mas a verdadeira psicodinâmica do Oasis se deve muito mais a seus progenitores sulistas com jeito de cafetão e aspirantes à boemia - as Majestades Satânicas originais. Como os Rolling Stones, o Oasis é um quinteto com um líder inefavelmente carismárico e sexual e prosperou na tensão psicossexual entre seu letrista/guitarrista principal e seu líder/estilo guru.

"No caso do Oasis, isso é ainda mais atiçado pelo consanguinidade. Basta imaginar o que deve ser escutar seu irmãozinho cantando sobre suas experiências sexuais e sentimentais para entender por que músicas como WONDERWALL possuem tamanha ressonância emocional. Só para estender um pouco mais a psicoanálise, se existe um paralelo entre o Oasis e os Beatles, ele está nas personalidades de John Lennon e Liam Gallagher, Ambos passaram por infâncias difíceis; ambos sofreram o deslocamento concomitante do ser.

"Noel Gallagher descreveu seu irmão como alguém que 'vive em seu próprio mundinho' e inferiu que o efeito essencial do estrelato havia sido o de intensificar a obliquidade do relacionamento fraternal com sanidade. "Não creio que se tenha necessariamente que recorrer à patologia ou a psicologismos a fim de classificar a personalidade de extremos de Liam. Mas, ao contrário de Lennon, os irmãos Gallagher nunca se deixaram ser domesticados pelas exigências do comércio e da imagem. Lennon foi levado pela ânsia de abraçar sua (inicial) caracterização de amável, desprovido de classe e de sexualidade. Os irmãos Gallagher são ligados intrinsecamente às suas origens de classe proletária. Para entender a importância deste fato, deve-se observar quão rígidas as distinções britânicas de classe ainda são.

"Na Inglaterra, pode-se ascender da classe proletária à classe média em uma geração, mas não se pode chegar à cúpula. Se você possuir algum tipo de sotaque forte regional, não há como você ser considerado apropriado. "Na Grã-Bretanha, o proletariado industrial, principalmente no norte, formava uma horda masculinha dedicada à adoração fervorosa do futebol. Uma das partes mais tocantes da biografia da banda, escrita por Paolo Hewitt, é quando Noel descreve como eram aquelas tardes de sábado. Os pais deixavam seus filhos lado a lado de uma enorme barreira do tamanho das arquibancadas e corriam para o bar. Os irmãos Gallagher ficavam sentados ali, irradiados pelo som e pela cor que é uma partida de futebol inglesa em plenitude. E então a cantoria começava. É esse rumor rouco de multidão de torcedores que provê o forte sentimento de hino de tantas músicas do Oasis: são feitas de propósito para serem cantadas em massa.

"Outro aspecto importante da estética - ou anti-estética - Oasis vem da cultura do futebol: sua pose de "casual" fashion. Os Casuals foram a linha sucessória da estética Mod do final dos 60 e começo dos 70 que se inspirou na padronização das lojas de departamento. Oasis, com seus tênis amarfanhados, exemplifica um cruzamento bizarro entre os dançarinos movidos a anfetamina das raves e os hooligans munidos de navalhas que perturbavam as partidas de futebol inglesas nos anos 80. Isto, com uma dose saudável de putaria, drogas e mau comportamento exemplar, é o caráter pós-tudo, pós-rótulo do Oasis. Essa é a razão por que destruição de quarto de hotel e esmagamento fraternal é algo tão deliciosa e delirantemente digno de idolatria."

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