|
|
International
Magazine _ Se é que você me entende # julho 1997
|
Se é que você me entende
por Marcelo Fróes
Quando a gente escuta um novo trabalho de um artista que já se estabeleceu, fica aquele dúvida: "será que esse aqui também vai (de)colar?". Se estoura, a gente se lembra sempre da primeira audição. Do contrário, acaba esquecendo. No caso de BE HERE NOW, o terceiro trabalho do Oasis, seu lançamento no mercado internacional foi cercado de um grande esquema de segurança, além de uma enorme histeria por parte da mídia musical britânica. Anunciado desde o final do ano passado, quando os irmãos Gallagher e seus comparsas entraram em estúdio para gravar IT'S GETTING BETTER MAN (que teria sido o primeiro single), o disco chegou aos ouvidos três semanas antes de seu lançamento mundial e é por isso que você, nobre leitor, pode ler a seu respeito já nesta nova edição do IM.
Quem já viu o clip de D'YOU KNOW WHAT I
MEAN por aí, já teve uma idéia de que o som está mais sujo e pesado que nunca. A bateria está bem realçada e reverberada na mixagem e o disco parece ter uma unidade sonora, o que é ótimo. Se esta é a praia dos caras, merece ser visitada sempre. É a praia Beatles, que vem sendo explorada desde o primeiro trabalho e que é assumida publicamente pelos rapazes. O clip da D'YOU KNOW... por exemplo, parece uma versão apocalíptica de THE NIGHT BEFORE, clip dos Beatles em HELP!, só que ao invés de tanques de guerra o que se vê são helicópteros mais ameaçadores.
BE HERE NOW tem 12 faixas em 72 minutos de duração, o que dá uma média de nada menos que 6 minutos por faixa. Gravadoras que terceirizam o fabrico de discos com mais de 68 minutos têm que assinar um termo em que assumem os riscos da prensagem, especialmente no Brasil, onde muitos CD players mais antigos não tem "força" para ler discos tão cheios. É claro que todos preferíamos que o disco tivesse 18 faixas de 4 minutos, por exemplo, mas de repente o grupo preferiu se alongar nas versões para que sobrassem faixas para servir de bônus para os inúmeros CDs singles que saem por lá mas jamais por aqui (neste tocante, a esperança é a última que morre, especialmente porque o CD single de D'YOU KNOW... tem uma versão estupenda de HEROES, de David Bowie). De qualquer forma, vamos ao disco.
O disco abre com o primeiro single, que já está detonando na MTV e que tem aquele refrãozinho d'you know what I mean? (que deve ter mexido com Luiz Thunderbird, se é que você me entende). Na seqüência, MY BIG MOUTH entra no clima do primeiro disco com muita bateria e final esporrante, enquanto a seguinte, MAGIC PIE, tem um climinha acústico no começo - para quem gostou de
WONDERWALL, e depois entra numa de DON'T LOOK BACK IN ANGER -, mas é bom não esperar tanto assim depois das comparações acima, pois termina de forma super estranha, emendando com trechos e citações de diversas praias (também, para chegar aos 7m20s de duração, só viajando muito na maionese).
STAND BY ME, muito embora o título seja escancarado (ainda mais um disco do Oasis), nada tem a ver com o clássico de Ben E. King de 1961, redescoberto e apropriado por John Lennon em 1975. Mas isso não é problema, pois a música é ótima, é Oasis do bom. (Referências a Beatles, como já falei, são mais frequentes do que anúncio de plano de saúde na TV - WONDERWALL era o título do primeiro álbum solo de George Harrison e olha que a expressão não é comum) Vale comentar que a audição começa a chamar-nos a atenção para a masterização, que colocou cada faixa lado a lado com a seguinte, com um mínimo de tempo entre elas. No melhor estilo SGT. PEPPER, sem qualquer outra comparação. O pique nunca cai e I HOPE I THINK I KNOW vem naquela levadinha de ROCK'N'ROLL STAR.
Até aqui, todas as músicas do disco têm potencial radiofônico desde que provavelmente sejam submetidas aos famosos "radio edits". (Foi-se o tempo em que singles executáveis em rádio tinham que ter em média 3 minutos de duração, mas não é por isso que o Oasis vai querer exagerar
e empurrar uma faixa com a duração de HEY JUDE.) THE GIRL IN THE DIRTY SHIRT é meio chatinha na introdução, fica igual depois mas até que a segunda parte é melodicamente legal. Na cola, FADE IN/OUT, tem uma intro demorada e sugere uma piada, como se fôssemos ter uma intro e depois emendarmos no final, sem nada no meio. Com citações beatlemaníacas de "rollercoaster" e "helter skelter", nada acrescenta ao disco e de repente poderia ter ficado para bônus de CD single, dando chance da versão de HEROES ficar mais conhecida.
Já chegando ao final do disco, DON'T GO AWAY começa promissora com violão, guitarra e orquestra e não decepciona. É linda, complexa nos versos mas redondinha no refrão. Super setentista na segunda parte, com sua orquestra super presente. BE HERE NOW, a faixa título, soa um tanto sem graça e nos deixa sem entender porque lhe foi dado o destaque no título do novo trabalho, enquanto temas como ALL AROUND THE WORLD - cujo título tem mais a ver com a realidade do grupo - prometam arrebanhar milhares de corações femininos. Sim, também tem um quê de WONDERWALL e DON'T LOOK BACK IN ANGER, mas foge na hora "h" e nos deixa sem entender porque nos lembra tanto das duas citadas. Já IT'S GETTING BETTER MAN, que teria sido o single até o grupo gravar D'YOU KNOW WHAT I MEAN, é bem pesadinha e fecharia o disco não
fosse uma reprise instrumental de ALL AROUND THE WORLD, com orquestra e bateria em clima de George Martin. Pelo visto, eles ainda não desistiram de convencer o velho homem de estúdio a produzí-los e estão mandando um recadinho.
[foto da matéria]
|
|