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MTV _ Especial # 1998

Fábio Massari: Estamos começando mais um programa muito especial aqui na nossa MTV brasileira, tão especial que o nome é Especial Oasis. Aproveitando a presença da banda dos irmãos Gallagher em terras brasileiras, preparamos um especial daqueles. Tem registros videoclípicos, diferentes apresentações ao vivo, tem até a mãe dos Gallagher conversando com a gente. E como uma espécie de cereja do bolo, temos um bate-papo exclusivo com o simpático Noel Gallagher, um dos líderes, guitarrista e também vocalista do Oasis. Ele abre o nosso programa falando justamente sobre a mais nova turnê da banda. Noel Gallagher, Oasis.

Noel Gallagher:
Estou nessa há 10 anos, seja como músico ou roadie. Já estou acostumado. Depois desta turnê, talvez a gente descanse um ano. Entrei nessa há 10 anos e está na hora de uma siesta.

O set muda muito durante a turnê? Caso sim, por quê?
Noel:
Na Inglaterra era mais longo, pois tocávamos mais. Estava longo demais, então o diminuímos um pouco. Agora, há uma parte acústica. Geralmente, não mudamos muito o set. Tocamos o mesmo set todas as noites pra facilitar as coisas. Mas seria legal fazer um set diferente toda noite.

Essa turnê do Oasis já passou pela Europa, EUA, Japão, Austrália e Nova Zelândia, e termina agora na América Latina. Esse show foi no ano passado, em Manchester, cidade natal da banda
D'YOU KNOW WHAT I MEAN?

Você disse que não quer tocar mais em clubs pequenos. Por outro lado, bandas como U2 e Rolling Stones querem isso de volta, querem tocar em lugares pequenos.
Noel:
A gente não toca pra 50 mil pessoas toda noite, não me interprete mal. Se pudesse escolher, não tocaria em teatros de novo.

Show em um club em Glasgow, na Escócia, em maio de 1993
BRING IT ON DOWN

Noel:
Fora da Inglaterra, nossos shows são em lugares pequenos. Gosto de tocar em lugares grandes. É legal. Respirar ar puro faz bem.

Diria que o Oasis é uma banda que se sente melhor no palco de acordo com o tamanho da platéia?
Noel:
Quanto maior a platéia, maior o som e o espetáculo. As músicas tendem a crescer durante um show grande. Também gosto quando o público fica bem próximo, mas num show grande isso é impossível. É uma pena.

WONDERWALL

Você ainda se surpreende com a reação do público ou todo público é igual na sua opinião?
Noel:
Em geral, as platéias são todas iguais. Nas américas... há diferenças pequenas. Na América do Sul, o público é mais tranqüilo do que os ingleses. Os italianos e os espanhóis são loucos. Acho que os brasileiros são iguais. Os latinos passaram tempo demais ao sol e ficaram todos loucos.

Você sempre brinca e cria com a sua guitarra. Você tem um processo de criação ou simplesmente acontece? Tenho a impressão que a música vem muito fácil pra você.
Noel:
Não costumo pegar a guitarra e falar que vou compor. Sempre tem alguma guitarra jogada em algum canto. Não tenho um processo de criação. Isso acontece. Às vezes, fico seis meses sem compor e, de repente, faço quatro músicas em seis dias. Espero o momento certo.

Programa de inverno da MTV americana, em 1995
DON'T LOOK BACK IN ANGER

Fábio Massari voltando, Especial Oasis também voltando. O que temos pela frente? Temos o seguinte: temos Noel Gallagher falando sobre Beatles, temos Noel Gallagher desempenhando Beatles ao vivo no banquinho e com o violão, temos um encontro virtual bem interessante, intermediado por esse que vos fala, de Bono Vox e Noel Gallagher, um falando do outro, uma exclusividade nossa. E começamos em grande estilo com Noel Gallagher falando de uma coisa que eles entendem muito: o assédio dos papparazzi. Batemos um papo com Noel Gallagher.

Noel:
É preciso se acostumar. O assédio nunca pára. Se parasse, você não seria mais famoso. Faz parte do trabalho. Num mundo perfeito, a gente faria nosso trabalho sem a interferência da imprensa. No mundo real, não funciona assim. É impossível fazer parte de uma banda famosa e não ser assediado pelos papparazzi. Infelizmente, é assim.

Com a excessão dos papparazzi, parece que você gosta da imprensa musical, pois você colabora criticando singles e dando entrevistas.
Noel:
É possível se divertir com a imprensa musical. Damos entrevistas e contamos um monte de mentiras. A maior parte do tempo acreditam na gente. Às vezes, entramos em encrenca, mas depois rimos de tudo aquilo.

Quando Bono conversou conosco, ele mencionou você.
Noel:
Verdade?

Bono: O Oasis tocou com a gente algumas vezes, e Noel Gallagher disse: "Só dois tipos de pessoa não querem fazer esses grandes shows: os idiotas e os mentirosos".

Noel: Quando se forma uma banda, não se pensa em vender 500 álbuns e tocar para 50 pessoas num club. Você forma uma banda para vender 5 milhões de álbuns e tocar para 500 mil pessoas toda noite. Foi por isso que formei uma. Sempre respeitei o U2 como banda, porque eles souberam aceitar a grandeza do rock'n'roll. O rock é isso. Eu não quero voltar a tocar em clubs de novo. Quando finalmente encontrei com o pessoal do U2, eu os achei legais. Não são os grandes rockstars que todos acham, são gente fina.

Show do U2 em São Paulo, em janeiro de 1998
I WILL FOLLOW - U2

Sempre que lemos algo sobre o Oasis, há a comparação com os Beatles, queira você goste ou não. O que acha dessa relação? Você respeita os Beatles, mas existe uma rivalidade entre as bandas, né?
Noel:
Os Beatles continuam sendo a nossa banda predileta, mas recentemente começaram a falar na imprensa que não gostam de nós. Mas tudo bem, pelo menos pensam na gente. Legal. Não me importo.

O Oasis costuma tocar uma versão de HELP em seus shows
HELP

Eu li que Stuart Sutcliffe (ex-Beatle) deixou músicas inéditas que seriam dadas ao Oasis. É verdade?
Noel:
Fiquei sabendo da história, mas não vi na internet. Se alguém quiser me dar músicas, tudo bem, desde que eu não tenha que pagar por elas.

Estamos de volta com o nosso Especial Oasis. Agora você vai conhecer a mãe dos irmãos Gallagher, a mãe do Noel. Temos aí as bandas que o Noel também gosta. Você vai saber um pouco mais do gosto ou de que tipo de som ele gosta, mas ele começa falando sobre as inúmeras biografias escritas sobre a banda. Batemos um papo com Noel Gallagher.

Noel:
A maioria foi escrito por pessoas não ligadas à banda, e que simplesmente inventaram histórias. Há uma biografia chamada Getting High, de Paolo Hewitt. Ele sempre escreve sobre suas aventuras com a gente. Só haverá um livro oficial, o meu, quando eu o escrever. Mas eu não me importo. É divertido ler esses livros.

Você chegou a ler algum, então?
Noel:
Não. Só li trechos. Não sou um leitor ávido. Leio mais revistas do que livros. Os livros estão aí pra quem gosta de ler. Acho que os fãs deveriam ler todos os livros por aí pra tirar suas próprias conclusões sobre o Oasis.

DON'T GO AWAY

Há alguns anos, bandas inglesas encontram dificuldades pra entrar no mercado americano. Nos últimos anos, por causa do Oasis e do Prodigy, a coisa mudou. O Oasis estabeleceu como meta "ganhar" o mercado americano?
Noel:
Não sei o que significa "ganhar" o mercado americano. Já vendemos muitos álbuns e tocamos pra muita gente lá. Se isso significa "ganhar" esse mercado, então conseguimos. Na Inglaterra, acham que não temos sucesso nos EUA. De todas as bandas inglesas, somos a que mais vende álbuns e a que tocou pra mais gente lá. Isso é uma coisa de mídia, né? A gente vai continuar tocando e vendendo álbuns. Esse é o nosso trabalho.

Quais bandas inglesas você curte? Quando leio algo sobre você, noto que raramente menciona bandas americanas, estou certo?
Noel:
Pra ser honesto, nenhuma presta. Gosto de algumas bandas, como Smashing Pumpkins, Beck e Neil Young. O Nirvana foi a última grande banda americana. Nada na MTV me empolga em relação à música americana. O mesmo vale pra música inglesa. O Verve, Radiohead, o Prodigy e Chemical Brothers são bandas boas. Há uma banda inglesa chamada Travis que vai se destacar no ano que vem. Eles são ótimos. O Cornershop também.

BRIMFUL OF ASHA - Cornershop

Você sempre foi um grande fã de música. Que tipo de fã é hoje, sendo de uma banda importante? O seu gosto pela música diminuiu, ou ainda sente arrepios quando ouve algo?
Noel:
Os últimos álbuns bons que ouvi foram do Cornershop e do Verve. Quando estamos na estrada, fica impossível conseguir todos os lançamentos. Quando voltamos para casa, temos que colocar os últimos seis meses em dia. Mas descobrimos que não era tudo isso. Na estrada, geralmente levamos a nossa coleção de James Brown, Sex Pistols, Led Zeppelin, os Beatles, os clássicos. Não costumamos ouvir música contemporânea na estrada. Mas é bom chegar em casa e ouvir os lançamentos.

BITTER SWEET SYMPHONY - Verve

Se você fosse guia turístico, como descreveria Manchester pro público brasileiro? Qual a importância pra você e sua música?
Noel:
Primeiro, foi onde nascemos, onde estudamos e é onde nossas famílias moram. Há um lugar chamado Maine Road, a sede do Manchester City, a melhor equipe de futebol da Inglaterra. Queira você goste ou não. Fora isso, não há muita coisa. Há muitos estudantes, clubs e bares, mas faz 5 anos que não vou pra lá. Não sei mais o que está acontecendo por lá. De vez em quando, volto pra ver a minha mãe.

Peggy Gallagher: Se eu estivesse mal, ia querer que eles ficassem em Manchester. Eu gostaria que eles tivessem se assentado aqui, mas isso não vai acontecer. Contanto que eles estejam felizes...

É muito difícil pra você sair em Manchester?
Noel:
É impossível. A gente tem que sair à noite pra visitar a nossa mãe durante o dia, e depois pegar o carro e voltar pra Londres. Não dá pra sair na noite.

Você sente falta da privacidade?
Noel:
É mais fácil sair em Londres. Mas gosto de ficar em casa assistindo TV, não sou um cara de noite. Gosto de ir a shows, mas prefiro ficar em casa com a mulher e os cachorros e ver TV, talvez um jogo de futebol. Sou um homem simples.

MORNING GLORY

Gosta de clips e da MTV?
Noel:
Gosto da MTV, mas detesto fazer clips. Ficar 18h trancado numa sala fingindo tocar guitarra, é a coisa mais chata da sua vida.

É obrigatório fazer clips hoje em dia?
Noel:
É. Nos anos 60 e 70, não era preciso fazer clips. O lance era toar ao vivo. Atualmente, vivemos na era do clip. É preciso fazê-los. Ninguém nos obriga a gostar de fazer clips, eu não gosto.

CHAMPAGNE SUPERNOVA

Noel:
Na América do Sul, no Brasil, muitas pessoas nos viram, pela primeira vez, na MTV. Se não fosse pelos clips, ninguém nos reconheceria. Não que isso faça diferença. Vivemos na era da TV, e temos de usá-la, mas prefiro manter uma distância.

Estamos de volta com o nosso Especial Oasis. Batendo um papo com Noel Gallagher. Ele fala com a gente agora sobre a sua turnê brasileira, fala os planos para o futuro que vem daqui pra frente, mas começamos com o nosso papo sobre o próximo disco da banda: uma coletânea de lados B do Oasis. Batemos um papo com Noel Gallagher.

Há planos pra fazer um álbum de lados B? Quando vai ser lançado?
Noel:
Possivelmente, no fim do ano. Temos que começar a compilá-lo. Acho que vamos deixar os fãs escolherem as suas prediletas. Vão votar pelas música via Internet. É assim que vamos compilar o álbum. É pros fãs. Muita gente me aborda falando que seria legal colocar todos os lados B num álbum. É uma boa idéia, assim você não tem que ficar trocando o CD. Estamos fazendo isso pros fãs. Por outro lado, a gravadora quer ganhar dinheiro. Então, ela vai fazer pra faturar o dela.

THE MASTERPLAN, lado B do single de WONDERWALL, no acústico MTV
THE MASTERPLAN

Você disse que pretende tirar férias de um ano, e sempre há rumores de que a banda vai acabar.
Noel:
Pode acreditar em mim, o Oasis não vai acabar. Nunca planejamos fazer uma carreira. Começamos como cinco amigos, tocando pra nós mesmos, mas alguém nos contratou e gravamos um álbum que virou sucesso. Saímos em turnê e gravamos mais um álbum. A gente gosta de fazer as coisas com calma. Planejamos tirar um ano de folga e voltar em 1999 pra gravar o álbum novo do Oasis. Quase tudo que se lê na Internet é mentira. Os jornalistas gostam de inventar histórias. Tentam me pôr contra o Liam, dizendo que brigamos direto. Hoje em dia somos grandes amigos. Andam dizendo que vou gravar um álbum solo, nem cogito fazer isso. Nunca pensei nisso. Só se a banda acabar. Não há planos da banda acabar esse ano.

Caso fizesse um álbum solo, quem chamaria? Que amigos você chamaria pra tocar no álbum?
Noel:
Seria bom formar uma superbanda.

Quem chamaria?
Noel:
Paul Weller, no piano e vocais, Mani, do Primal Scream, no baixo. Quem vai tocar bateria? Todos os bateristas bons se aposentaram ou morreram.

Pode incluir quem quiser como baterista.
Noel:
Keith Moon. Teria que ser ele. Eu chamaria o Johnny Marr. Seria legal, mas nunca vai acontecer.

Apresentação no programa 120 minutes, da MTV americana
ROCK 'N' ROLL STAR

Fale sobre os shows que fará no Brasil.
Noel:
Há tempos que queremos tocar no Brasil, vai ser bom chegar aí e tomar sol.

Em São Paulo, vocês vão tocar no Sambódromo, onde acontece o Carnaval. O que acha disso?
Noel:
Sambódromo? Soa bem. Nunca estive no Brasil, e não conheço ninguém que esteve aí. Não sei o que nos espera. O que eu conheço sobre o Brasil? Futebol... aquela montanha, o Pão de Açúcar... e o povo dançando na rua durante aquele festival... Qual é mesmo?

Carnaval.


Noel Gallagher foi roadie do Inspiral Carpets e esteve na Argentina e no Uruguai com a banda
I WANT YOU - Inspiral Carpets

Há oito anos, você fez uma viagem pra América do Sul. O que achou do público latino?
Noel:
Eles são... loucos. Doidos varridos. O público latino gosta muito de música. Não sei o que acham do Oasis, mas já me falaram que o público gosta. Estou ansioso pra encontrar com fãs do Oasis.

Há outra forte ligação entre brasileiros e ingleses, o futebol.
Noel:
Pelé e Bobby Moore. Os ingleses gostam de assistir à seleção brasileira jogar. Mas vamos derrotá-la na Copa. Tá sabendo, né?

Eu ia falar que você deveria tocar no Brasil antes da Copa.
Noel:
Depois de ganharmos, seremos proibidos de entrar no Brasil.

É isso aí. Esperamos vocês no Brasil.
Noel:
Estamos a caminho. Estamos chegando.

Obrigado.
Noel:
Até logo.

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