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O Globo _ Senhoras e
senhores, os novos reis do iê-iê-iê # 20 março 1998
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SENHORAS E SENHORES, OS NOVOS REIS DO IÊ-IÊ-IÊ
Pop reciclado: Oasis mostra com quantos retalhos se faz uma banda de rock nostálgica
por Carlos Albuquerque
Olha a chamada! Atenção! Quem não viveu na época dos Beatles e Rolling Stones, quem só ouviu falar do T-Rex, quem comprou o clássico ZIGGY STARDUST, de David Bowie, há apenas algumas semanas, quem conheceu os Sex Pistols no Close Up Festival e quem só pegou uma onda no som das bandas "franjinha" de Manchester, todos esses devem dizer presente hoje à noite no Metropolitan, quando
o grupo Oasis vai estar ministrando uma pequena aula, em forma de show, sobre mais de 30 anos de rock inglês. Tudo condensado, resumido e muito bem reciclado. Só a originalidade ficou de fora do currículo. Mas aí também é querer demais.
O Oasis é isso. Um grupo que tem pouco mais de três anos de vida, mas que parece ter mais de 30. Por quê? Porque o Oasis é uma síntese multíssimo bem produzida (incluindo aí toques precisos de marketing) de quase toda a história do rock made in England. É como se os irmãos Gallagher -
Liam, o vocalista, e Noel, guitarrista e principal compositor - dissessem ao mundo:
"Foi isso o que aprendemos, foi isso o que ouvimos, está aqui a nossa versão".
E aí tome T-Rex replicado em CIGARETTES & ALCOHOL, Bowie revisto em LIVE FOREVER (belíssima, possivelmente a melhor música do Oasis), Stones reciclados em ROLL WITH IT e, claro, Beatles simulados em ALL AROUND THE WORLD, CHAMPAGNE SUPERNOVA, WHATEVER e muitas outras. Pelos menos no caso
dos Beatles, tudo é assumido com orgulho.
"Os Beatles são minha banda favorita de todos os tempos", disse Noel há alguns dias em entrevista coletiva no Chile, no início dessa turnê americana. "Eles não influenciaram apenas o Oasis, mas toda a sociedade. Não há como fugir disso."
Na Inglaterra, hoje, em 1998, também não há como fugir do Oasis. Não que o grupo tenha o mesmo papel revolucionário e inovador dos Beatles no auge de sua carreira - quem busca inovação hoje deve mergulhar no underground atrás do som de bandas de inspiração eletrônica como Reprazent e Chemical Brothers. O sucesso bateu à porta do Oasis porque o grupo usa o bom senso pop (e a nostalgia de diversas gerações) para conquistar as massas. E porque à frente daquele bando de músicos medianos e de um vocalista com carisma zero há um grande compositor de melodias pop, Noel Gallagher. É ele, e mais ninguém, o motor e coração do Oasis. Se ele sair da banda, bye bye.
Entre sessões informais de boxe que tinham seu irmão mais novo, Liam, como saco de
pancadas, e audições constantes de discos dos Beztles, assim cresceu Noel
Gallagher na cinzenta Manchester. Aos 13 anos, ele já sabia tocar várias músicas dos Fab Four no violão. Aos 15, Noel descobriu o punk, cuspiu em tudo à sua volta (mirando especialmente em Liam) e foi para a rua fazer o que todo adolescente faz nessa idade: besteira (para não dizer outra coisa), incluindo aí porres homéricos e namoros com drogas variadas.
Passada a onda, Noel sossegou e resolveu ganhar uma grana. E arrumou trabalho: virou roadie do grupo Inspiral Carpets. Com ele, viajou pelo mundo até chegar à conclusão
que seria capaz de fazer muito melhor do que aqueles caras que o tinham contratado.
Resultado: largou tudo, voltou pra casa, encontrou Liam com uma banda, deu um chega para lá no irmão, tomou-lhe a liderança e mostrou com quantos acordes se faz uma boa banda de rock. E assim nasceu o Oasis.
O primeiro disco, DEFINITELY MAYBE, é, ainda hoje, o melhor do grupo. Paredes de guitarras, baladas cativantes, frescor juvenil, muita folga, muita marra e frases significativas e proféticas como "Hoje à noite/ Eu quero ser uma estrela do rock"
(ROCK AND ROLL STAR) e "Eu quero viver para sempre" (LIVE FOREVER).
O disco seguinte, (WHAT'S THE STORY) MORNING GLORY?, fez o Oasis estourar nos Estados Unidos e, por tabela, no Brasil. Puxando tudo, o hit
WONDERWALL, uma balada ao violão que os Beatles assinariam embaixo. Por fim, BE HERE NOW, o terceiro disco, mostrou o Oasis estacionado, como se tivesse esgotado seu repertório de covers não assumidos.
É essa banda, perdida entre o passado que nunca abandonou e o futuro que sempre evitou, que toca hoje à noite no Metropolitan.
Um grupo frio em cima do palco
Tem bandas que crescem ao vivo. Seu material ganha vida e o carisma dos músicos dá o valioso tom que diferencia o que está no palco do que foi ouvido no disco. Os Rolling Stones são assim.
Outras bandas, porém, simplesmente não pegam fogo em cima de um palco. Seus integrantes podem tocar as músicas com alguma intensidade, mas, frios e sem carisma, não têm aquele elo de ligação com a platéia. O Oasis é assim.
Esse é o primeiro aviso. O segundo: o grupo não trouxe para essa turnê sul-americana o mesmo cenário com o qual excursionou pela Europa e Estados Unidos. Não foi uma grande perda. O cenário original - visto por este que vos digita num show em Estocolmo, em setembro do ano passado - era de gosto duvidoso: rampas, uma cabine telefônica inglesa, a carroceria de um carro e um telão arredondado. Naquela ocasião, Noel e companhia fizeram um show morno, tocando as músicas do disco com irritante fidelidade, o tédio aumentado pelo ar "não estou nem aí" de todos.
Semana passada, em Santiago, no Chile, outra dose de Oasis e com novo cenário: apenas um pano branco pintado de azul e vermelho. O show foi igualmente morno. Alguns hits no começo
(STAND BY ME, D'YOU KNOW WHAT I MEAN?), um módulo acústico no meio, tocado por Noel (incluindo versões bacanas para LIVE FOREVER e SETTING SUN, dos Chemical Brothers) e a segunda parte, com os hits de peso
(WONDERWALL, CHAMPAGNE SUPERNOVA). Resta torcer para que hoje, com o Metropolitan lotado, com a galera ali pertinho, o gelo do Oasis se quebre e a banda tenha uma noite de Rolling Stones.
Em comparação
BEATLES
Esposas: John Lennon foi casado com Yoko Ono.
Discos: Gravaram SGT. PEPPER'S e mudaram o mundo.
Cidade: Eram de Liverpool.
Ídolos: Chuck Berry e Little Richards.
Cabelos: Franjinhas no começo da carreira.
Rio: Nunca tocaram.
Fama: Mais populares do que Jesus Cristo.
OASIS
Esposas: Liam Gallagher é casado com Patsy Kensit.
Discos: Gravaram três discos e venderam milhões.
Cidade: São de Manchester.
Ídolos: Beatles, John Lennon, Paul McCartney.
Cabelos: Franjinhas no começo da carreira.
Rio: Tocam hoje.
Fama: Mais populares do que o Blur.
DISCOGRAFIA
DEFINITELY MAYBE: O primeiro do grupo vendeu mais de 150 mil cópias em apenas uma semana, um recorde para bandas estreantes na Inglaterra. No recheio, 11 faixas que resumiam 30 anos do rock inglês. Nenhuma pretensão de salvar o mundo. Apenas música escapista da melhor qualidade. Destaques: LIVE FOREVER e
SUPERSONIC.
(WHAT'S THE STORY) MORNING GLORY?: O Oasis venceu o desafio do segundo disco com um trabalho menos pesado que o seu debut e repleto de baladas rock inspiradíssimas como CHAMPAGNE SUPERNOVA, WONDERWALL e DON'T LOOK BACK IN ANGER. Foi o disco que fez a banda se tornar conhecida (e popular) nos Estados Unidos.
BE HERE NOW: Um disco com barulho de fonte secando. A mesma marra, os mesmos simbolismos batidos (capa repleta de imagens ligadas à história do rock) e músicas que parecem com outras da banda ou, pior, de suas "fontes", como DON'T GO AWAY (uma nova CHAMPAGNE SUPERNOVA?) e ALL AROUND THE WORLD (uma nova... HEY JUDE?).
[foto da matéria]
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