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  Saladestar _ Oasis incendeia São Paulo debaixo de temporal # março 2006

PARA LAVAR A ALMA

Oasis incendeia São Paulo debaixo de temporal
por Daniela Varanda

O desafio de falar sobre uma banda como o Oasis é imenso. Não porque se trata de meu grupo favorito, pelo qual possuo uma admiração muito intensa. É que justamente pelo fato de amá-los, acompanho sua trajetória e me permito exigir muito da banda. Não quero que me decepcionem e é por isso que antes do show do dia 15 de março, foi como se rezasse baixo, pedindo "Vamos lá, fucking bastards. Mostrem-me por quê aturar esse trânsito caótico e essa chuva torrencial vai valer a pena".

Chegar ao estacionamento do Credicard Hall não foi fácil para os 14 mil fãs, o que poderia ser bem previsível, não fosse pela resistência em subestimar a organização: se o show seria montado no estacionamento, alguém iria organizar um outro local para estacionarmos, certo? Errado. A região da Marginal Pinheiros próxima à casa de shows ficou intransitável e muita gente teve de suspender a balada e se contentar com o CD player ou com o telão que dava para a calçada da Marginal. Parecia até premeditado.

Para quem conseguiu entrar, a pontualidade foi como no ditado. Às 22 horas o Oasis subiu ao palco ao som de FUCKING IN THE BUSHES, assim como fez por aqui em 2001, quando se apresentou no Rock in Rio III. Uma apresentação que merece ser esquecida – eles abriram para o decadente Guns N’ Roses e, para os fãs de Oasis, minoria na ocasião, foi duro aturar aquele bando de saudosistas mal educados. Por sorte, nossa memória recente será marcada por uma poderosa apresentação que esquentou uma noite debaixo de tanta chuva.

Em uma hora e quarenta minutos, os ingleses donos de uma fama de arrogantes e briguentos incomparável demonstraram simpatia surpreendente. É, o Oasis mudou e eu ainda estou me adaptando. Ouso até a dizer que Liam amadureceu. O frontman, por todo o show, agradeceu ao público, nos aplaudiu e até se fez entender nos diálogos. Após a introdução, a noite começou efetivamente com uma música do baixista Andy Bell, TURN UP THE SUN, canção que abre DON'T BELIEVE THE TRUTH, mais recente álbum da banda. Do mesmo disco, vieram os singles LYLA e THE IMPORTANCE OF BEING IDLE, além de MUCKY FINGERS, MEANING OF SOUL e A BELL WILL RING. Todas muito bem recebidas, mas nada se compara ao poder dos clássicos.

A chuva não era britânica, mas o próprio Noel a comparou à de Manchester. E pedia hits, pedia Rock’n Roll para aquecer as almas cansadas de um público que já havia sofrido demais naquela noite. E eis que o Oasis nos dá ACQUIESCE, o "quase lado A" que incendiou o Credicard Hall. A imagem do público pulando debaixo do temporal enquanto Noel dizia que "precisamos uns dos outros" fez com que eu e todos os demais esquecêssemos cada buzina que havíamos ouvido nos minutos anteriores. LIVE FOREVER dedicada à seleção brasileira, SUPERSONIC e CIGARETTES AND ALCOHOL trouxeram de volta a época junkie de DEFINITELY MAYBE, a redenção dos velhos fãs e a conquista dos adolescentes, presentes em peso. A organização liberou a entrada de um público de 10 a 13 anos acompanhados pelos pais, uma grande conquista para uma banda que não está exatamente "no auge".

A pesada ROCK'N ROLL STAR trouxe a força que os ensopados pediam. Usando a mesma luz de seu videoclipe, jogou mais água nos olhos dos nostálgicos. E para os hitmaníacos, lá veio WONDERWALL, sempre eficiente, um coro ensaiado. E um orgulhoso Liam Gallagher aplaudia nossas vozes. O BE HERE NOW ficou fora do set list.

Não foi só a simpatia de Liam que mostrou que o Oasis pode até não ter mais o brilho do hype de (WHAT'S THE STORY) MORNING GLORY?, mas envelheceu como vinho. Hoje, o espaço dado aos músicos não pertencentes à família Gallagher não tem precedentes. Embora não seja integrante oficial da banda, Zack Starkey, incrivelmente parecido com seu pai Ringo Starr, teve direito até a solo de bateria e participação nos telões maior do que a do próprio Noel.

No encerramento, nada mais marcante do que MY GENERATION, sucesso do Who, anunciando que o Oasis continua tão jovialmente vibrante quanto quando o britpop reinava sem dividir espaço com o rock descartável. Exijo que o Oasis continue se posicionando como uma banda de rock, mais influente do que influenciada, e eles me deram a noite de glória que eu temi perder pela dificuldade de se chegar ao Credicard Hall. Foi apenas uma brincadeira dos deuses do rock.

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