s l i d e t blur oasis verve contato emails links
Melody Maker _ Estrelas cadentes # junho 1992

Estrelas cadentes

Verve é a maior banda que já entrevistei em minha vida. O vocabulário deles é inacreditável. O magnetismo deles é insuportável. Este é o futuro. E isso não sou eu que falo. Sumir para o bar para uma rodada de bebidas durante uma entrevista e não é incomum para uma banda soltar o botão de pausa no gravador e deixar pequenas mensagens para a edificação do jornalista quando ele vem transcrever a entrevista. Normalmente estas mensagens não são grande coisa - apenas alguns ruídos: "Oi! Acorde, Melody Maker filho da puta!", esse tipo de coisa. Porém, Richard do Verve aproveitou a oportunidade para pensar grande. Esta era a mensagem dele.

Talvez fosse uma paródia do tipo de hipérbole obstinada com que Verve foi adornado desde a sua estréia com o EP ALL IN THE MIND. Talvez fosse uma lembrança para o jornalista não se entregar em excessiva perseguição por adjetivos, fazer reivindicações exageradas para a jovem banda, criar expectativas impossíveis que eles não poderão cumprir. Mais provavelmente, ele quis dizer isto. Ou algo assim. Verve não está numa conversa pequena ou ego-depreciação. Verve vive para Verve, para se expandir, superar, exceder, não por dinheiro ou deslumbramento mas para a causa gloriosa de ser.

Então, como eles se medem? Bem, não estou certo se Verve é a maior banda que já entrevistei em minha vida - afinal de contas, eu entrevistei Crowded House uma vez. O vocabulário deles é acreditável - eles são tão grandes quanto dizem que são. O magnetismo deles é suportável. E eles são o futuro. O futuro imediato, pelo menos.

Verve é o próximo retiro dialético na estrada do rock para nenhum lugar em particular. Como o Suede, eles funcionam em parte como uma reação à cena de bandas de 1991. "Talvez Suede e outras bandas como nós viram estas bandas e só pensaram, 'Jesus Cristo, cara! Você não está expressando nada! Eu poderia ter um público melhor do que você pode'."

Não era como Ride, Slowdive, etc., era inanimado ou desprezível, só que eles eram muito recatados, muito ansiosos para não distrair a atenção do seu espetáculo com algum ruído de embrulho de doce. Horrorizado por demagogos muito intrusos como Bono ou prevenido de políticos como Billy Bragg, eles conceberam rock como um banho sensual no qual você ficou perdido, encantado, irradiado, não como um banho no chuveiro. Estava bem - mas a modéstia louvável deles, o desejo desconfiado deles para não impor... Estas pessoas eram muito tímidas.

Que é onde o Verve entra. Eles criaram uma fascinante dupla de som - escute a propósito (WANNA KNOW WANNA BE WANNA) FEEL, o lado B do novo single - SHE'S A SUPERSTAR- corta lentamente de um lado de sua cabeça para o outro - mas eles não dissolvem naquele som. Eles arranjaram o truque de ser dramático sem ser auto-conscientemente intrometido ou afeminado. Em resumo, eles têm o Richard.

Sem Richard, Verve ainda teria uma superlativa guitar band - eles são um grande acordo mais do que somente um veículo das obsessões vertiginosas dele. O guitarrista Nick McCabe, o baixista Simon Jones e o baterista Peter Salisbury alcançaram um estado extraordinário de fluxo musical que a maioria das bandas nunca alcança. Mas é a presença de Richard que os faz verdadeiramente especiais. O modo com que ele vive na música, é enaltecido, imponente, atirado e voltado para isto, arremessado junto e rasgado separadamente por isto, traz um espetáculo existencial que, francamente, como o Ride é incapaz de proporcionar.

Sentado do lado de fora do pub Holborn hoje, o traje ligeiramente desprezível de Richard é compensado por uma gravata daquelas que parecem feitas com um pedaço de cortina rasgada. Posa em volta do seu pescoço como um adorno ou um laço. Ele se parece com não sei o que - poeta vagabundo, um dândi psicopata, um trapo alegre e homem osso... isso não importa. Ele é alguém. Ele é algo.

Verve emergiu de lugar nenhum. De Wigan. Casa de Martin Offiah, o cassino e incontáveis pavimentos de pedras. Talvez isso fosse uma vantagem, eu sugiro. Richard, vertiginoso por tomar muito vinho, fala direito no gravador com um tremor nervoso, ardente, tendo certeza de toda palavra incluída.

Richard Ashcroft: Isso é verdade, se você é de Londres, você tem pessoas vindo te ver e lhe escrevendo desde muito cedo, considerando que nós tivemos anos que... Eu estive em bandas desde que tinha 17 anos. Nós tivemos anos para estar prontos. E só quando estávamos prontos fizemos um show em Londres. Tocamos em um show em Londres e fomos contratados.
Essa é a essência desta banda, criando algo do nada. Tentando ser alguém de lugar nenhum. Eu aprendi cedo. Meu pai morreu quando eu era realmente jovem. Ele trabalhou das nove às cinco toda a sua vida, e sofreu e não esteve em parte alguma. E eu tinha 11 anos na ocasião e imediatamente percebi que esta não era a vida para mim. Imediatamente descobri como alguém pode morrer tão depressa apenas sendo exterminado. Então eu pensei: 'Foda-se, vou fazer algo positivo, posso fazer algo positivo, posso fazer algo grande, vou fazer algo de mim'.
Eu quero ser alguém, ou alguém que é respeitado ou alguém que é odiado. De qualquer modo. Nós tocamos em Norwich e este sujeito veio e disse: 'Posso lhe contar algo?', então eu disse: 'Sim, claro', e ele disse: 'Eu acho que você é um 'cock'. E pensei: 'Nossa! Eu tinha comovido este cara'. Melhor que dizer: 'Eu acho que o show foi bom'.

Conhecer verdadeiramente o Verve é vê-los ao vivo. Os conhecer um pouco melhor é ouvir o segundo singles deles, SHE'S A SUPERSTAR. ALL IN THE MIND era adorável mas poderia ter sido um erro, não mais do que uma mera confecção auricular com um perfume agradavelmente melancólico. SUPERSTAR e especialmente o verso, os 10 minutos épicos, FEEL, os mostra no seu máximo - soprando estado dramático de diminuição de retorno logo antes do coro - sem samplers ou pequenas caixas negras de truques, eles desenvolveram um som orgânico, dinâmico, translúcido, que perfeitamente molda e acomoda em Richard as trocas sutis e voláteis mudanças de humor. Escorre, jorra em volta novamente, mudando de cor como a vontade e o momento os leva. Este som desvanece sua cabeça.

Richard: O segundo EP é mais íntimo, para nos fazer soar como ao vivo, um som maior, uma sensação maior. Obviamente, quando gravamos o primeiro EP, éramos ingênuos sobre como tirar o melhor de um estúdio - somente entramos lá, tocamos e era isso. Estávamos felizes na ocasião mas depois de duas ou três semanas nós estávamos pensando: 'Cristo, poderíamos ter feito muito melhor do que isto'.

Um tendência forte de murmurar e conversar à parte ao longo da entrevista sugere que o Verve estivesse sob pressão para estreitar o seu som, assinar com singles de três minutos. Agradecidamente, eles resistiram. Outras bandas quebraram as barreiras dos três minutos e recentemente derramaram por milhas e milhas o grande efeito. Porém, Verve tem alcançado um groove que soa como se eles pudessem continuar para sempre, um som rock que é perfeitamente natural, não "luxuoso" mas tão essencial quanto respirar.

Ao vivo, eles desaceleram completamente o seu material para um movimento petrificado, lento e enfatizaram sua própria beleza, saboreando sua própria essência. Pense em todas essas bandas que esmurram freneticamente em galope até o final da canção, para que as notas vagabundas não sejam expostas ou o bar feche ou percebam num momento exposto a tolice existencial de seu frenetismo forçado.

Richard acena com a cabeça vigorosamente. "É isso mesmo. Quando estamos no estúdio, quando tocamos uma faixa, tocamos por 15, 20 minutos, mas nenhum de vocês pode, você tem que colocar uma faixa de quatro minutos."

"Não é uma odisséia de jazz, ou outra coisa", explica o guitarrista Nick, por via de qualificação. "Não é sobre solos longos, só uma continuação do fluxo."

Até agora você provavelmente só terá percebido até onde o Verve quer estar afastado de seus compatriotas indie, com quem eles são forçados a esfregar ombros nas paradas e listas.

Richard: Nós não pegamos nossas influências das bandas do último ano, bandas como o Wonder Stuff. Nós escutamos as realmente grandes bandas, as bandas que realmente estavam fazendo algo. Esse é o problema com um monte de bandas, elas são condicionadas a escutar as paradas indie dos últimos dois anos. Eu não me interesso por nada disso. Não quero que a gente seja uma banda 'indie' na parada 'indie'. Não colocamos nossos discos entre os Kingmakers e Thousand Yard Stares desse mundo, nós os colocamos tão alto quanto eles podem ir. Eu quero que a gente seja uma banda mundial na parada mundial. Não queremos nos encaixar. Verve nunca deveria estar em categorias.

É toda aquela conversa pequena que os ofende, o inconseqüentemente encardido, os low profiles, o desejo frenético de satisfazer o público para preencher a imagem tão medíocre e despretensiosa e desrespeitosa como imaginam que eles sejam, em vez de lhes dar algo que atirar. Richard é um grande conhaque em um mundo de pequenas cervejas. Verve não se desculpa por estar "lá em cima".

Richard: Aquela atitude que o The Stone Roses tentaram apagar. Eu não quero garotos comprando nossos discos e pensando que poderiam fazer igual. Eu quero que eles pensem: 'Eu realmente amaria poder fazer algo assim, mas sei que nunca poderia, porque é tão especial. É único'.

Verve está determinado que prefeririam morrer antes de sua carreira estar estabilizada.

Richard: Tudo o que fazemos é natural, nunca fomos empurrados para nada. Obviamente, sofreremos pressão de gravadoras para fazer certas coisas, mas nunca faremos. Eu gostei de bandas anteriormente e você pode ver imediatamente quando elas foram pressionadas a fazer algo pela gravadora ou pela imprensa, e isso fede. Até onde estou envolvido, se pelo segundo ou terceiro single o Verve estiver sendo pressionado por homens de ternos, o Verve irá falir e somente iremos e faremos nossa própria coisa. Porque não precisamos disto. A razão pela qual estou em uma banda é me expressar e ser diferente. Se houver um momento em que sentir que algum foda de um homem de negócios gordo está interferindo no que estamos fazendo, nós desistiremos porque eu poderia muito bem estar trabalhando em um chão de fábrica. Grandes bandas sempre se formaram somente para se satisfazer. Fazemos isso para nós mesmos, sempre fizemos. E contanto que eu esteja satisfeito, nós progrediremos, faremos melhores shows, gravaremos melhores discos.

Nick McCabe: Esta banda é totalmente egoísta, egocêntrica e auto-indulgente e isso é exatamente o modo como deveria ser.

Conhecer Verve, como já disse, é vê-los ao vivo. Eles são uma banda do momento, presos à emocionante emoção da ocasião. Eles poderiam reduzir toda a velocidade para cinco milhas por hora, poderiam sair fora depois de duas canções. Coisas acontecem, humores balançam, tudo colore a música. Eu lembro de vê-los uma noite e assistir um homem com aparência respeitável, um camarada ligeiramente calvo com um terno e um par bastante pronunciado de óculos, empunhando um guarda-chuva. Lentamente, a música o envolveu. Lentamente, ele foi atraído em direção à beira do palco. Então, através da massa de corpos eu o notei, tragado violentamente, fascinado, como se na agonia de um exorcismo. Minutos depois ele emergiu, sangrando ligeiramente, sorrindo com felicidade, sem os seus óculos. Verve é uma banda que pega você. Verve é uma banda que o faz perder seus óculos.

"Quando nós tocamos ao vivo, eu tenho um milhão de pensamentos que nadam por minha mente", se entusiasma Richard, quando eu lhe pergunto pelo o que ele passa lá em cima. "E às vezes as pessoas mencionam Damon do Blur como uma comparação e isso realmente me chateia. Trivializa meus sentimentos. Porque quando tocamos, sinto como se estivesse voando. Eu sou obcecado com voar. E quando tocamos ao vivo, é a coisa mais próxima de estar decolado desta terra."

Isto é uma confirmação de sua dança, atualmente meio levitando, um salto petulante de cima abaixo, fazendo como um moinho de vento, agora olhando congelado de temor para a parte de trás da sala como se tivesse uma premonição terrível.

Richard: A maioria dos meus sonhos são sobre voar, sobre partir para lugares. Eu acredito que daqui a alguns anos poderei voar.

Ahn?
Richard:
Eu honestamente acredito nisso. Através da meditação. Eu tenho um padrasto que está meditando seriamente e me disse sobre estar elevando a temperatura em um quarto ou virando varas na água somente pela força de sua mente. Coisas como essa me influenciam muito. Eu estava preso em Wigan sem trabalho mas minha mente estava à centenas de milhas de distância no céu e no mar. É tudo escapismo, sobre estar em outro lugar.
Os 40 minutos que estou dando para tocar ao vivo é um puta de um escape. Você tem uma semana de vida em Wigan onde você é um ninguém, pode caminhar na rua e ninguém o conhece. Mas por 40 minutos eu posso ser alguém, expressar todos  meus medos, o que for. E é pra isso que eu vivo, esses 40 minutos. Por três semanas, eu não sou nada, fico assistindo a televisão num merda de um apartamento em cima de uma farmácia. Mas no palco, lá eu sou alguém. E há 400 pessoas, 200 pessoas, 40 pessoas, procurando algo de você.
A única coisa que me preocupa sobre Verve é que viajando mataremos isto, a sede por tocar não estará lá. Porque quando temos um show dali a três semanas, eu penso nisso todas as noites e visualizo como vai ser e realmente fico excitado. E estou preocupado que tocar repetidamente estragará isso. É difícil com algo que é tão livre e desobrigado... idealmente, eu gostaria de tocar uma vez a cada três semanas.
Nós nunca premeditamos um concerto - como bandas que praticam um set durante seis meses antes de uma excursão. É tão calmo e sombrio, não há nenhum espaço para movimento. Eles tocam por três noites seguidas o mesmo set. Espontaneidade é a coisa. Se você vê uma banda tocar algo que nunca nem mesmo entrou na cabeça deles antes do show, você é erguido por isto, você se sente parte disto, que eles estão respondendo para você, estão se erguendo com você. Não é sempre bom. Quando tocamos em Norwich, dirigimos durante seis horas para chegar lá. E havia só 15 ou 20 pessoas em pé na frente. Então só tocamos duas canções, depois saímos. Pode parecer como uma coisa egoísta, mas qual é o ponto? Qual é a finalidade de enganar estas pessoas pretendendo que Verve é o tipo de banda que somente passa as idéias? Não estava acontecendo, e depois explicamos isso às pessoas e elas entenderam.

O desejo de Richard em estar numa banda assumiu o seu desejo de ser um jogador, um desejo nascido naquela hora, momento de revelação na sua vida quando o seu pai morreu. Ele quis ser Pelé, George Best - mas se manteve a seis passos largos da marca do pênalti. Ele preferia ter sido jogador do que estar na banda?

Richard: Eu não me importaria em ser aquele sujeito que marca o gol decisivo no final da Copa, mas sei que quando chegar segunda-feira ele estará às sete horas da manhã correndo em volta de um campo. Considerando que posso vir para Londres, fazer um show, ter um magnífico grande momento e então não ter que levantar antes das duas horas do dia seguinte. Porque é disso que esta banda se trata, fazer o que você quiser fazer, praticar quando quiser praticar. E é isso o que os garotos querem ler sobre suas bandas favoritas, não sobre todas as coisas que estão sendo forçados a fazer, pressão das gravadoras, mas que estão tendo uma puta diversão. Afinal de contas (acrescenta Richard com um jeito comovente), eles estão pagando sua diversão, então o mínimo que você pode fazer é devolver a eles.

É o dever deles. Cumpra o seu. Ouça o Verve enquanto você pode. Amanhã pode ser tarde demais - você poderá estar morto. Aproveite-os agora.

próximo verve topo